Um estranho no ninho.

Por  @caio_io

Existem anseios, receios, um pouco de sofrimento também eu vos diria. O que por ali habita é um pouco de tudo ou um amontoado de porra nenhuma. Assim é e sempre será. As pessoas caminham buscando diversãobarata seja vendo um show da tua banda favorita ou talvez pra ver as primas. Tudo depende muito de como é o teu estilo. O alternativo prefere beber com os amigos “cool” num barzinho mais chique, lendo um bom livro, falando sobre cinema, literatura e o cotidiano. Outros preferem a baixada, onde sofrimento e solidão cultivam um mundo repleto de trejeitos mais que estranhos, mas é assim, cada um vai pra onde mais desejar. E eu às vezes me pergunto: O que eu estou fazendo aqui?

Então peço ao Cacá, pra descer mais uma cerveja. E assim a noite segue. Ela parece nunca ter fim. Às vezes tem muita das vezes não. Neste lugar tu crias laços tão eternos que dificilmente irá ficar um bom tempo sem por lá passar. Nem que sejam apenas para dividir os teus sonhos de ser alguém melhor ou não. Ser alguém melhor é muito relativo. Por lá todos te estendem as mãos, conversam, dividem experiências. Seria um mundo dentro de uma rua? Mal vista por muitos, minha mãe é um bom exemplo disso. Não que eu ligue para certas opiniões, há tempos que deixei que pensamentos alheios mudassem meus dias, minhas rotinas.

É tudo politicamente correto demasiado. Pessoas fingem muita das vezes serem aquilo que não são só para serem aceitas. Válido? Mais um bar, outra menina que deixou teus sonhos de lado para ganhar um dinheiro fácil em apenas mais uma casa das primas que coexistem por ali. É estranho, de fato passar com teus amigos e ver essas coisas, às vezes pergunto-me: Este seria o jeito mais fácil de se viver.

Transar com uma pessoa que tu nunca mais irás ver? Apenas mais um rosto que ela irá anotar na sua memória, mas que em fração de segundos irá apagar, pois a hora acabou e o próximo cliente já está pronto para fazer o serviço. Não preciso dar uma de politicamente correto nestes casos, teu caminho é seu, então trilhe do modo que achar mais viável, mas não seria doloroso demais, não ter com quem contar? “A maquiagem esconde os hematomas da alma”. Caminho um pouco mais com meus amigos e me deparo com mais um bar, com mais pessoas que se acham as tais e saem por ai batendo nas pessoas. Seres ridículos tenho apenas pena de vocês.

Deixo-os para lá, tomo mais uma dose de conhaque e continuo a caminhar, agora me deparo com pessoas vendendo seus trabalhos. Sento-me um pouco, converso. É tão bom não ser julgado pelo teu estilo. Oferece-me um trabalho e eu curti, puxei as moedas do bolso e fiz uma troca, justa por assim dizer. Agradeço e retiro-me. Aquelas padarias 24h que por muito tempo eu costumava frequentar e pegar algo para deixar-me um pouco mais acordado e fazer a noite “nunca ter fim”. Mas o que me restou destes dias, foram apenas os lamentos no final de cada dia mais. Não que tenha sido ruim, mais o fim é sempre doloroso demais. E quando tu desiste de sonhar?

Quando não há mais esperanças? O jeito é tomar umas e esquecer que fiquei por tanto tempo aqui, sentado, calado só para ouvir um pouco mais de tuas hipocrisias. Quando isso vai parar? Eu mesmo não sei responder-te. Simplesmente olho para todos ao meu redor e faço uma cara alegre, de quem está gostando de tudo, ainda mais por ter pessoas especiais ao meu lado.
Tantas coisas, muitos shows filas e mais filas. Nunca vejo tais casas vazias. O copo está sempre cheio, mas e a alma? Meio cheia, meio vazia… Sonha um pouco mais jovem é de graça. Isto não podem tirar de ti. É sofrimento demais? Milagrosamente, deixei certos vícios para trás, assim como os lamentos.

Parei de me lamentar. Esqueci-me de tudo que me trava o sorriso, que por assim dizer: Faz-me refém de minhas próprias lembranças. Acho que muitos que caminham por onde eu estou caminhando, devem pensar a mesma coisa ou talvez não. Talvez quem saiba, eu seja só mais um tolo, procurando o meu caminho, seguindo por tudo aquilo que meu destino me reserva.

Se for bom ou ruim eu não sei, mas se a vida é um jogo então vamos ganhar. Uma dose de seleta para comemorar mais uma reunião com esses sorrisos tão cativantes. Um brinde aos nossos erros corriqueiros, um sonho que acaba na manhã. Um agradecimento há todos que fazem dessas noitadas na rua serem as melhores a cada dia que se passa. Um brinde meu bom, venha brinde comigo você também meu bom garçom. Já sou da casa, conhece-me pelo nome.
São tantas coisas a dizer. Estilos diversos, pensamentos visionários demais. Pessoas que por assim dizer, lhe dão a mão em um momento de desespero.

É uma luz que nunca se apaga. Uma rua que nunca se cala e dormir por aqui é uma coisa luxuosa demais. Por isso sempre que venho me aconchego, sinto-me
em casa. Mas não dá pra chamar de lar. Quem sabe mais um bar com os amigos, uma casa de show onde eu possa lavar minha alma. Visitar as primas? Quem sabe numa próxima vez, hoje não. Vou apenas curtir a noitada que nunca se cala perante essa sociedade falida.

Aqui é assim, tudo que quiser, tem é só saber chegar e será bem aceito. Existe uma rua, lá no centro que mais parece um mundo, pois tudo que eu quiser lá eu encontro. E nessa meus amigos sempre estão ao meu lado. Paz e união meu bom. E só para acabar meu bom, desça-me mais daquela branquinha que me faz esquecer-se deste mundo tolo. Brilho eterno de uma mente sem lembranças apaga tudo aquilo que me faz sofrer. Amém!

Ando curtindo um Rap.

Não me lembro a data, mas lembro que eu estava em Santo Amaro. Curti uma noite bem susse, e de manhã, na arrumação para mais um dia de trabalho, um rap começou a comer solto. Sempre achei rap um estilo de música muito sem graça, muitas vezes ouvi músicas que faziam apologia ao crime e ao uso de drogas, mas depois desse dia, eu me apaixonei literalmente. A música era Selva, e as palavras da pessoa que tinha colocado para tocar foram: “-Rashid… Conhece?” Não, eu não conhecia, mas quando eu conheci, confesso que me deixei levar pela vibe incrível que o trabalho desse rapaz de 23 anos tinha feito. Não teve como resistir e depois de um pequeno esforço, e disponibilidade, através da noiva dele, Daniela Rodrigues, consegui uma entrevista exclusiva com o próprio. Com vocês, Michel, ou melhor, Rashid, o mano! [Leiam ouvindo a Mix Tape:  http://www.4shared.com/file/mjbls8I6/Rashid_-_Ddiva_E_Dvida__2011_.html

#SPNQSC: De onde veio esse apelido? Rashid é um nome bem diferente.

Antigamente eu usava o nome de Moska, por que eu desenhava e fazia uns bombs também. Então quando eu comecei a batalhar, eu tinha esse nome já e usei. Mas quando decidi me empenhar mais em fazer música, resolvi achar um nome que expressasse melhor o que eu queria transmitir. Aí veio o Rashid, que é um nome árabe e significa: de fé verdadeira, verdadeiro, justo.

#SPNQSC: Como foi que você começou a rimar?

Com uns 12 anos eu já escrevia alguma coisas e mostrava para os meus amigos. Já tinha esse sonho, escutava Racionais, RZO, DMN.. E queria ser como os caras. Nesse meio tempo aí, mudei de casa, mudei até de estado, e quando voltei para São Paulo, aos 17 anos, comecei a batalhar. E de lá pra cá as coisas vêm crescendo. Hoje tocamos no Brasil todo. Acho que o maior segredo é o amor pelo que se faz, por que quando vamos fazer um show, existe uma regra: tocamos pra 2, 3 mil pessoas e tocamos pra 30 pessoas, com o mesmo amor. Espero que daqui um tempo, sejam 30 mil. E aí voltaremos para a quebrada, onde poderemos rimar pra 100 pessoas num evento beneficente com o mesmo afinco. Acredito nisso.

#SPNQSC: Nós já postamos muito sobre o graffiti em São Paulo. O que você acha desse tipo de arte?Porque a maioria dos grafiteiros curte ouvir RAP enquanto pinta…

O graffiti foi uma das minhas portas de entrada pro Rap. Como eu disse lá em cima, eu fazia uns bombs (estilo de graffiti, um pouco mais simples, “prático”) antigamente, e sempre desenhei. Me dediquei muito a isso quando era mais novo. Sonhava em me tornar um grande nome do graffiti e viajar por aí fazendo isso, tipo “Os Gêmeos”. Sou fã! O graffiti é uma parte imensamente importante no hip-hop. O que era marcar território numa época mais gangsta nos EUA, virou arte e foi parar nas galerias e exposições  ao lado de lendas. Isso é progresso!

#SPNQSC: Você já riscou alguma vez?

Sim. Foi nessa época, eu tinha uns 15, 16 anos.

#SPNQSC: Como foi sua infância?

Minha infância foi um tanto quanto solitária (música triste de fundo… risos). Mas é real! Meus pais se separaram quando eu tinha uns 2 anos, e minha mãe trabalhava fora, então com mais ou menos 7 anos eu já ficava sozinho em casa. Costumo falar disso nas músicas. Ia para a escola e quando voltava na hora do almoço, tinha que comer um prato de comida fria que minha mãe deixava em cima da mesa coberto com um pano. A comida era fria por que minha mãe não queria que eu usasse o fogão, com medo de algum acidente. Eu acabava não comendo, e jogava a comida fora. Minha mãe descobria, aí já viu né?! (Risos). Nasci na zona norte e fui morar na zona sul. Passei por uns bairros e fui para a zona leste, da leste fui morar em MG, em Lavras. De lá voltei para a zona norte e depois fui sozinho para a zona leste novamente, sem fogão, sem geladeira, sem dinheiro. Só escrevia Rap, 24 horas por dia. Passei por muitas coisas, precisaríamos de mais algumas entrevistas pra eu contar tudo com detalhes. Mas agradeço por tudo que passei, isso me tornou o que sou hoje.

#SPNQSC: Conversei com a Dani, antes de falar contigo, e ela me disse que na sua vida, houveram 18 mudanças. Você nasceu na norte de SP. O que aconteceu para que você tivesse se mudado tantas vezes?

Sinceramente, não sei por que mudamos tantos vezes. Isso impedia o fato de eu fazer novas amizades, por que em breve estaríamos mudando, ou ano, num dava para saber. Minha mãe é uma guerreira, e quando ela achava que tinha que começar de novo, ela ia sem medo, desprendida. Era eu e ela, e só. Tenho muito dela em mim. Quando meus outros irmãos chegaram ela mudou um pouco, afinal, agora tinha mais gente, ele tinha que pensar mais nas coisas, e desde então ela ficou em MG.

#SPNQSC: Fala um pouco sobre a sua estadia em Minas Gerais.

Uma das melhores partes da minha vida, e uma das mais difíceis também. Mudamos para lá pra ficarmos perto dos meus avós, que já tavam com a saúde meio frágil. Lá fiz de tudo, trabalhei de servente de pedreiro, carreguei lenha, trampei de bóia fria, fiz graffiti, vendi minha bicicleta para comprar tinta, depois a tinta acabou e lá estava eu, sem tinta e sem bike. (Risos). Lá passamos por situações difíceis, de termos chuchu para comer em casa, por que plantávamos chuchu no quintal, senão não teríamos nada. Mas foi lá também que me aproximei mais ainda do Rap. 

#SPNQSC: Conta para nossos leitores, como é sua amizade com os caras
que tem as mesmas ideias que você? [Emicida, Projota, entre outros].

Projota é meu amigo de infância. Dessa época que eu demorava em Minas. Tivemos uns 3 grupos de Rap juntos, antes de seguirmos carreira solo. E continuamos trampando juntos, inclusive estamos trabalhando numa mixtape juntos para muito em breve. O Emicida eu conheci na batalha do Santa Cruz. Voltávamos juntos de lá, e quando um de nós ganhava, parávamos em Santana pra comer pastel com o dinheiro do prêmio. Hoje estamos todos focados, cada um em sua carreira, em sua música, mas somos irmãos. Digamos que, devido ao aprendizado e sentimento pelo Rap. Nunca estivemos tão próximos.

#SPNQSC: Na música “Porradão” você diz que tem rap para todos os tipos de gente, para meninas, para meninos, para todos. Qual sua visão sobre o RAP em São Paulo?

Certas pessoas dizem que o Rap está em crise, eu acho que na verdade, certas pessoas estão em crise. Acordo todo dia e tenho um milhão de coisas pra fazer, ligadas à música, quando tenho um tempo, vou para o estúdio fazer música ou estudar um pouco. Tenho uma media de 2,3 shows por fim de semana, e conheço varias pessoas que estão trabalhando num ritmo tão frenético quanto o meu. Como isso pode ser chamado de crise? Tenho 23 anos e vivo de Rap. Achei que isso seria impossível, mas logo provei para mim mesmo que é mais que possível. Hoje o Rap tá em vários lugares, e temos Rap pra todos os gostos, isso é perfeito, somos música, somos arte. 

#SPNQSC: Na sua vida, o que é dáviva, e o que é dívida?

A música é minha dádiva e é minha dívida ao mesmo tempo. É o maior presente que Deus poderia me dar, justamente por isso, vou passar o resto da vida tentando fazer valer a pena.

#SPNQSC: Conta para gente a história de preparação, até que seu EP ficasse pronto…

É um processo da hora. Um aprendizado que faz parte das “vantagens da independência”. Sendo um artista independente, fiz tudo praticamente sozinho, claro que tive a ajuda de varias pessoas, mas quando se trata do seu disco, o peso está nos seus ombros. Mas foi bom, por que o EP obteve um respaldo muito maior do que imaginava, e de lá para cá já lançamos varias paradas que ajudaram a firmar nossa cara na cena.

#SPNQSC: Eu vi a ultima twitcam que o Projota fez, como estão os preparativos para o próximo trabalho junto com ele?

Estão a mil. Se fosse no começo do ano, já estaria tudo pronto, mas devido a demanda de trabalhos e shows, ficou um pouco mais difícil de nos vermos todos os dias pra trabalhar na mix. E olha que moramos na mesmo rua. Só pra você ter idéia de como tá o ritmo… Mas tudo indica que sairá no fim desse ano ou começo de 2012. Nos aguardem!

Agradecimentos especiais à Daniela Rodrigues, por sua compreensão, paciência e pelas lindas fotos.

Spinelli Détachez.

Blecaute.

Quando eu tinha uns 13 anos, curtia ficar até tarde acordada para ver uma série que passava no SBT às madrugadas. Além da imaginação, era uma série com histórias que sempre tinham uma lição de vida no final dos episódios. Porém, cada epsódio mostrava um tipo de situação que pessoas jamais imaginariam passar. Coisas que mais parecem impossíveis, ou coisas que as pessoas teriam de escolher, sendo que tudo tem importância para elas.

Então, ano passado conheci uma pessoa sempre trocava figurinhas comigo, falávamos muito sobre música, gostos em comum, e livros. Um dia essa pessoa comentou sobre dois livros. Um deles, ele já tinha lido, e o outro, queria ler. O livro que queria ler era Ensaio Sobre A Cegueira, do José Saramago, que posteriormente eu comprei, na versão original, em português europeu. E o outro livro que já havia lido, era uma recomendação. Blecaute. Era o nome que eu tinha. A pessoa não se lembrava do autor, e não me lembro se recordava da história. Só me lembrei alguns meses depois. As palavras usadas foram: “O livro é foda. Leia”. Então, um belo dia, eu comprando Sidney Sheldon, ganhei um box [quase de graça] da Agatha Christie, e me foi recomendado outro livro. Feliz Ano Velho. Nunca ouvi falar. Mas o cara da livraria disse que era do Marcelo Rubens Paiva. Me lembrei de súbito das palavras: “O livro é foda. Leia.” e resolvi perguntar se lá tinha. Não tinha, mas descobri que o autor era o Marcelo também. Há dois dias ganhei de presente do meu irmão, e olha, eu tinha que resenhar sobre ele, pois ele é a cara de São Paulo.

A história se passa em São Paulo. Um rapaz chamado Rindu tem a ideia de levar 3 amigos à uma expedição no Vale do Ribeira. Um dos três amigos desiste na última hora, e é expulso do grupo. Ficam apenas, Rindu, seu melhor amigo Mário e a namorada de Mário, Martina. Uma enchente alaga as saidas da caverna e eles ficam presos por três dias. Quando voltam à São Paulo se deparam com a cidade abandonada, e seus moradores todos viraram estátua. Marcelo Rubens Paiva, narra a saga dos três amigos, num mix de magia, suspense e aventura tão incrível, que prende a atenção do leitor. Fora que, o enredo mostra muitos picos de São Paulo. Lugares que provavelmente o próprio Marcelo esteve antes e durante a escrita da história. Lugares como Anhangabaú, Augusta, Paulista, Brás, Mooca e até mesmo o interior de São Paulo são citados. Dando ao leitor uma imensa vontade de conhecer os lugares citados, para verificar pessoalmente a descrição das personagens. Fora que, a todo momento, a história mostra conflitos de três jovens que não sabem porque foram escolhidos para vivenciar o mundo inteiro ter virado pedra. Não sabem muitas vezes lidar com suas próprias emoções, ficam tempos sozinhos, o sexo escasso para um, e as drogas aos montes para outros. Um livro apaixonante, intrigante e intenso. E eu precisava recomendar aos meus leitores.

 

Spinelli Détachez.