Cuidado com “vertigem*”.

Por @caio_io

Hoje não venho aqui só como entrevistador do São Paulo Não Quer Ser Cinza, mas também como fã incondicional desta banda. Hoje estou aqui para fazer algumas perguntas para nada mais, nada menos que o Colligere. Banda formada em Curitiba/PR em meados de 2000, por amigos que além de tocar, queriam mostrar o descontentamento e a vontade de ter algo diferente da realidade presente, convencionada ou construída, é o que impulsiona as pessoas a tomar decisıes que podem mudar suas vidas. A sensação de que pode ser melhor, o momento em que quebramos a tela de vidro da apatia, que separa o que somos e fazemos daquilo que poderíamos, a certeza de que agora é melhor e diferente do que passou. Tem como principais CDs: Sobre Determinação e Desespero, A Split com o Faded Grey, Incerto e Palavra. Atualmente a banda está em hiato, mas todos os fãs esperam por uma reunião surpresa.

Colligere

Colligere

SPNQSC: Quando vocês montaram o Colligere, qual era o intuito principal como banda? Pois pelo menos no meu ver, o Colligere é uma banda diferenciada. As letras são poéticas, as melodias são cativantes e o público adora tudo isso.

Rodrigo: A gente é um balaio de gato. Quando a banda começou (1999-2000) a ideia era tocar como algumas bandas gringas que a gente gostava na época, tipo Battery, Bane e By The Grace of God. O “Sobre determinação e desespero” é isso. Com letras mais políticas, inspiradas no Nations of Fire e no situacionismo, que estavam na moda. No split com o Faded Grey (2002) a gente encontrou uma bifurcação que levava, de um lado, para o hardcore melódico (Dag Nasty, Turning Point, Dead Fish e Garage Fuzz) e, de outro, para o Iron Maiden. As letras ficam mais “poéticas”, como você diz, mas ainda tem um pouco de política.

No “Incerto” (2003), a bifurcação virou uma encruzilhada. Foi aí que entrou a influência do Shai Hulud, por exemplo, mas também do At the Drive In. A gente queria se permitir tudo o que gostava, qualquer coisa, e aí foi a maior loucura. Se você pegar as versões de ensaio dessas músicas, tem umas partes completamente absurdas. Felizmente a gente cortou muita coisa e mudou as músicas antes de gravar. Mas ainda tem muita mistura. Como disse um amigo quando escutou o disco, é como se você estivesse andando na rua e de repente caísse um elefante. Não faz muito sentido. Algumas letras ainda são políticas e tem aquele texto no final, que segue a ideia de disco-manifesto, típico de bandas como Refused e das coisas da Crimethinc. Ali também a gente começa a fazer colagens nas letras, mais uma influência do Guy Debord e dos situacionistas.

Finalmente, o “Palavra” (2007), que é musicalmente mais bem comportado e maduro, na minha opinião. Ao mesmo tempo em que volta um pouco para o começo da banda. Mas as letras já não tem quase nada de política. Eu realmente não sabia mais o que dizer e acabei falando sobre isso.

SPNQSC: Como vocês vêem o Colligere após o término da banda, pois como vocês mesmo dizem na página no facebook (https://www.facebook.com/colligere), a banda não teve um show final. Quer dizer que, os fãs ainda podem esperar mais shows surpresas? Pelo que vejo atualmente, os integrantes estão fazendo outras coisas. Existe a possibilidade de o Colligere entrar em estádio e fazer novas músicas e com isto, lançar um novo cd?

R: A gente anda tocando uma ou duas vezes por ano, mais para se reunir e não esquecer. É praticamente a única oportunidade que eu tenho pra ver os caras e dar umas risadas. O Brunno e o Douglas ainda se encontram porque tocam no Beyond Frequency. O Gabriel e o Brunno porque são irmãos. Mas o Tuzi está em São Paulo com o Sabonetes e eu não tenho tido muito contato com o pessoal. É claro que quando a gente se reúne dá vontade de tocar mais vezes, gravar alguma coisa nova e tal. A energia dos shows e o jeito que o pessoal recebe cada anúncio de show empolga demais. Mas é muito difícil que isso aconteça.

Propagandhi

Propagandhi

SPNQSC: Vocês já tocaram com muitas bandas da cena, sejam elas nacionais ou internacionais. Existe alguma banda que vocês não tocaram que gostariam de dividir palco em alguma reunião de vocês?

R: Boa pergunta! Pra mim, tocar com o Bane e com o Propagandhi foi o mais legal até agora. Duas bandas que eu vou sempre escutar. O Catharsis também, na época, foi demais! Começar a dividir o palco com o Garage Fuzz, Dead Fish e Noção de Nada também foi um negócio que eu não esqueço. Hoje, eu queria estar no line-up do Ieper Fest, com O Inimigo. Tocar com o Shai Hulud também seria legal. Mas hoje eu tenho mais vontade de ver shows do que de tocar. Mesmo assim não vi nenhum show em 2013…

SPNQSC: O vocalista Rodrigo Ponce que compôs as letras. Sabemos bem que ele é professor de filosofia. Como é escrever letras que soam como gritos de revolta, injúrias, lamentos, vontade de ser mais e outra porrada de sentimentos controversos. E depois passar tudo isto para banda e chegar até os fãs? Você acha mais fácil compor letras para o Colligere, somente escrever ou é indiferente?

R: É diferente. Mas eu demorei para entender que escrever uma letra exige uma poética e uma preocupação com a sonoridade das palavras, mais do que um argumento. No começo eu escrevia textos e depois tentava encaixar nas músicas. Então cortava pedaços do texto, mutilando os argumentos. Porque o argumento está em função da música. É ela o que importa. Uma boa letra é aquela que consegue soar bem e ainda dizer alguma coisa.

É claro que um texto também precisa soar bem. Mas então é a sonoridade que está em função do argumento. Você escolhe as palavras que vão

mostrar melhor o que você quer dizer, tanto pelo seu sentido quando pela facilidade (ou dificuldade) da pronúncia, pela aspereza ou doçura que ela carrega, pela associação com outras palavras.

Mas a música pode conduzir suas palavras para outro lugar. Ela pode querer dizer outra coisa. Isso aconteceu muitas vezes comigo, no Colligere. Eu queria escrever sobre uma coisa e saiu outra. O texto também pode sair imprevisto e é melhor se isso acontecer, porque você descobre coisas no caminho. Mas, nesse caso, não é o som das palavras que conduz. É o sentido delas. As novidades que aparecem quando elas se reúnem. O argumento pode mudar, mas o que está em questão ainda é o argumento. Na música não.

Hoje eu prefiro escrever um texto de filosofia. Sem dúvida. Principalmente porque eu não sou e nunca fui músico.

SPNQSC: Existem músicas que vocês fizeram que nunca tenham sido lançadas? Pois, o fim da banda ocorreu de uma forma meio que inesperada. Vocês iam fazer alguns shows com o Comeback Kid em SP e Curitiba, ai veio a lamentável notícia do término do Colligere. E que vocês decidiram cancelar o show de SP e fazer o último show em casa.

R: Não tem nenhuma música escondida ou que ficou sem gravar, infelizmente. Se tivesse, acho que a gente já teria gravado.

SPNQSC: Eu fui ao show reunião de vocês, no Inferno Club (SP), no dia 8 de maio de 2011. E quando vi vocês subindo ao palco fiquei me questionando: “Caralho pensei que nunca mais iria vê-los”. E o show foi realmente absurdo, sem palavras para o que aconteceu aquele dia. Foi um dos shows que mais marcaram minha vida. E no ano passado vocês fizeram mais alguns shows, no Rio de janeiro, Natal, João Pessoa. Qual foi o motivo do cancelamento dos três shows do Colligere em SP (Centro, São Bernardo do Campo e Santos)? E vocês têm algum plano para reunião em 2013?

Caio no canto direito acima na foto. Rodrigo no palco.

Caio no canto direito acima na foto. Rodrigo no palco.

R: O motivo do cancelamento foi o que acontece muitas vezes no hardcore e que enche o saco. A pessoa começa a organizar um negócio muito grande e aí não dá conta, cancela e fode tudo. Ou pior, leva a banda até lá e não paga. O que, felizmente, não aconteceu.

SPNQSC: Bom, eu realmente queria agradecer o espaço que vocês concederam ao SPNQSC. Sei que vocês andam muito ocupados com outros assuntos, mas eu fico grato de verdade. Espero que vocês façam mais reuniões e quem sabe não retornem aos palcos (?), para a alegria de todos os fãs de Colligere. Deixem um recado para o pessoal do Blog.

R: Não esqueça de onde você veio. Não esqueça suas raízes.

 

*Trocadilho do título fazendo alusão à música favoria do Caio.

 

Editado por Spinelli Détachez.

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