Clube da Cultura – Apenas um dia ruim.

Por Lucas Silva

Que me perdoem os fãs dos outros, mas no universo dos heróis não há, em minha opinião, um que supere o Batman, em um universo onde todos são permeados por questões tão altruístas que chegam a beirar o ridículo e sem traço algum de veracidade (sim, eu sei se tratar de um universo fantasioso mas justamente por isso prezo pelo verossímil, ao menos, no âmbito psicológico), temos um herói que faz as perguntas difíceis e toma as atitudes necessárias apesar das consequências que elas podem apresentar. E estamos falando de um cara que após ver seus pais serem assassinados, sai em treinamento pelo mundo atrás de técnicas de luta, disfarce e aprimoramentos para anos depois voltar à cidade natal e usando do seu maior medo como disfarce acabar com a vilania e corrupção do lugar. Sensacional, não?

Então há de se concordar que um herói assim precisa de um antagonista à altura. E ele tem, um dos mais icônicos vilões já criados, o Coringa. E de certa forma é dele que falo hoje ao resenhar sobre uma das melhores Graphic Novels já escrita (não só para os fãs do Homem-Morcego): “A Piada Mortal”.

Insano, cruel, sem qualquer consideração pela vida humana; esses são alguns dos adjetivos que podemos oferecer ao Coringa, características porém que podemos encontrar em diversos vilões, um dos dos diferenciais dele porém é a esfera de mistério ao seu redor, quem é o Coringa, de onde veio, o que o tornou assim? E são essas as questões respondidas em ‘A Piada mortal’ (The Killing Joke, 1988) escrita por ninguém menos que Alan Moore, desenhada por Brian Bolland e originalmente colorida por John Higgins (em 2008 foi republicada em edição de luxo e recolorida pelo próprio Brian Bolland), claro que ao falar de super-heróis tratamos de vários universos e arcos de histórias diferentes, portanto não há uma origem “definitiva” do vilão, mas essa é hoje a mais renomada e melhor aceita pelos fãs.

A história começa com o Batman visitando o Coringa no Asilo Arkham pois diz perceber que a situação dos dois caminha para um fim, que muito provavelmente será a morte de um, de outro ou de ambos, e ele quer chegar em um final diplomático, o Morcego descobre porém que novamente o vilão fugiu e sai então à sua procura.

Em paralelo vemos o Coringa em um parque de diversões abandonado negociando a compra do mesmo com um homem e em certo momento se dá o primeiro dos flashbacks que contam o passado do criminoso: Um comediante fracassado que sem condições de oferecer uma vida digna à esposa e ao filho que está a caminho acaba em um esquema para ajudar dois bandidos a invadir o laboratório químico para o qual um dia trabalhou para de lá chegarem em uma fábrica de cartas de baralho; seguem os planos, entretanto no dia da invasão ele descobre que sua esposa morreu eletrocutada em um acidente doméstico, devastado e sem ter mais o motivo que o levou a buscar dinheiro dessa maneira ele tenta sair do plano, mas os dois o impedem; fantasiado do vilão Capuz-Vermelho ele entra na empresa com os dois bandidos que têm os planos frustrados pela chegada de guardas e do Batman, os dois ladrões são baleados e apavorado o comediante foge e é perseguido pelo herói – que acredita estar perseguindo Capuz-Vermelho – e em um momento de descuido e pânico cai em um poço de ácido deixando lá o homem que um dia foi e trazendo à tona o Coringa.

De volta ao presente o Palhaço do Crime dá seguimento a seu plano, ele invade a casa do Comissário Gordon e atira em sua filha, Bárbara, a Batgirl, que fica paralítica (E mais tarde torna-se o Oráculo, também ajudante do Batman), e nesse ponto há uma das ambiguidades da história, que os criadores deixaram a cargo dos leitores interpretar, o Coringa despe Bárbara e tira fotos dela para depois mostrar a Gordon a fim de enlouquecê-lo, dá-se a entender porém que ele além de tudo também violentou a moça ao vermos as tais fotos que ele mostra a Gordon após sequestrá-lo e o levar ao parque que comprou. Depois de procurar por toda a Gotham, Batman recebe do próprio Coringa a sua localização, ao chegar ele resgata o Comissário que está bem apesar de tudo e parte em busca do vilão, que revela seu plano: Qualquer homem pode ser quebrado, que apenas “um dia ruim” o separa do resto das pessoas, foi assim com ele, assim com o Batman e pode ser assim com todos. O desfecho vou guardar para não estragar a leitura bem induzir você a uma conclusão, mas tem uma piada nele, e ela é de matar!

‘A Piada mortal’ é como eu disse uma das melhores Graphic Novels já publicada e leitura indispensável para qualquer apreciador do estilo, aos fãs de Batman une-se isso ao fato de ter o que pode ser a luta definitiva do herói e seu antagonista, a origem de um dos maiores vilões dos quadrinhos e a união de grande parte dos elementos do universo do morcego: a ambiguidade dos fatos, o estudo psicológico dos personagens, um roteiro eletrizante e uma arte surpreendente e temos a melhor história do herói. Vemos que afinal herói e vilão não diferem tanto um do outro e foram apenas acasos que os criaram, simplesmente ” um dia ruim”.

Texto: Lucas Silva.
Fotos: Reprodução.

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