Ressaca – É assim que se faz, é assim que se ama.

Por @Detachez

Para resgatar os bons frutos do meu começo, decidi mudar de vida, mudar de emprego, mudar de casa, mudar tudo. Mas algumas coisas não podem ser mudadas. O passado não pode ser mudado. Porém, temos em nossa mente um lugar em que podemos guardar aquilo que não se perde, e também não volta mais. Na verdade, o ser humano gostaria mesmo era de mudar as coisas ruins, como não pode, resta guardar o que ficou de bom.

Posso dizer que em 26 anos vivi muita coisa. Conheci muitas pessoas e claro, vivi muitas coisas ruins que gostaria de mudar, e por não poder mudar, resolvi fazer escrever sobre um lugar que marcou minha vida. Quem não tem aquele lugar preferido? Um lugar que fez parte da sua história, que você pode dizer: ‘ali tanta coisa aconteceu’. Um lugar que se falasse, contaria boa parte das suas histórias boas.

Eu moro em uma cidade da zona oeste de São Paulo chamada Carapicuíba. Para contextualizar a coisa, vamos começar com um pouco da história do município.

Carapicuíba começou sua história há muito tempo, por volta de 1580, quando o Padre Anchieta fundou várias aldeias em sua chegada à São Paulo. Mas, a história só começa para a cidade a partir de 1965, depois que se emancipou de Barueri. Carapicuíba é a cidade mais “pobre” dessa região. Cercada por Osasco, Barueri, Itapevi e Cotia, o município aos poucos vem tomando tamanho, lugar e aqui, podemos encontrar muita coisa bacana. O centro da cidade abriga muitas lojas grandes, o famoso calçadão com muitos camelôs, bancos e coisinhas pequenas, como sebos, lojas de artesanato e bares.

Dentre estes lugares, existe um que, com certeza faz parte da vida de todos que já passaram da fase adolescente: o Supermercado Extra. Localizado na Avenida Desembargador Dr. Eduardo Cunha de Abreu, o Extra foi certamente a casa de muitos jovens que moraram por aqui. Hoje em dia não tem mais a mesma importância de antigamente, mas não posso contar minha história sem falar um pouco daquele lugar. Com uma rampa para subir, o mercado era um ponto de encontro, onde fazíamos o esquenta antes de ir para algum show, ou o pós rolê, no final da noite.

Na minha época, os festivais de rock independente eram muitos, muitas bandas se apresentavam em minha cidade, bandas como NX Zero, (na época uma banda BOA), Houdini, Killi, até bandas grandes, que incentivavam as apresentações independentes, como CPM 22 e Dead Fish. O mercado fica ao lado de onde muitas dessas bandas se apresentaram: o Expo Oeste. Mas o foco hoje vai ser no mercado. Fiz muitos amigos naquele lugar e em época de Orkut, quantas comunidades não fizeram parte das piadas internas que começaram naquele lugar?

Lá aprendi que não devemos nunca tomar Sagatiba com batata palha; que tomar Balalaika no final da noite, pode fazer com que você perca todos os dentes na volta para casa; que, mesmo com fome, sempre tem um “Kirino” da vida para abrir um salame e sair comendo pelo mercado; comprar revista é perda de tempo, quando podemos ler todas no mercado… E por aí vai. Muitas histórias, começos e fim de amizade, o estacionamento do mercado abrigava muitos jovens que ouviam música, bebiam e estavam sempre juntos. Uma turma que eu nunca vou me esquecer. Um jogo de bicho bebe apelido, com os guris do Los 40B, pessoas que fizeram parte da minha vida, que fazem parte da minha história. E não poderia deixar de contar a história mais emocionante de todas: este ano, em 01 de dezembro vai fazer 8 anos desde aquele dia que bebemos em todos os bares de Carapicuíba e que na volta para casa o fim de noite foi eu caindo na guia de boca e tudo. Eu e você Ellen Fialho.

Se o Extra pudesse falar, será que diria que tem boas lembranças de nós? Das fotos que tiramos lá e que se perderam com o tempo; das lembranças que nós também guardamos de lá? Certamente ele diria: eu também amei e amo muito vocês.

Texto e foto: Fernanda Saraiva.

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Na Moral – A linha tênue

Por Larissa Helen

Um dia sorrindo, outro dia nossos olhos não abrem. Um dia bem, no outro dia, não há mais ninguém.
Não há café da manhã feito, não há o almoço perfeito, não há as particularidades de um ser humano. Num dia está ali, no outro, não mais.
Você se recorda de algumas coisas, alguém abrindo a geladeira te pegando o Biotônico Fontoura, te servindo o almoço e preparando teu lanche para o colégio.

De repente, você perde as lembranças, esquece-se da pessoa e das coisas que ela fez, só. Só, o que martela na mente é o que você vê agora.
O dolorido “agora”. Você se esforça, e sua mente custa a aceitar determinadas coisas. Sua cabeça gira, teu corpo amolece, e, você cai.

É retirado do seu pedaço material. Perde-se, perde-se, em meio a não aceitação. Você não aceita a troca de papéis, quem um dia cuidou de você, hoje é você quem cuida.
A máquina de costura, a forma de bolo, a cozinha, o “cantinha da reza” ficam à espera de alguém.

Quem regará as plantas, quem alimentará as galinhas, quem cuidará dos cachorros?
Quem era indestrutível, hoje é vulnerável, quem sorria, hoje dorme.
A face, o cabelo, as mãos não são as mesmas, não há semelhança em nada disso.
Onde já justiça no ato de maltratar o que é “seu”? Há sete bilhões de indivíduos nesse planeta de merda, e resolvem simplesmente em brincar com você, testar seus limites emocionais, como num jogo.
Podem dizer por educação que tudo ficará bem, podem tentar te convencer de que ainda há forças, mas o medo prevalece. Ninguém deve sentir esse medo de perder alguém, ninguém, não faz bem isso.
Por mais complexo que seja a vida de cada cidadão, por mais veloz que o dia corra e as obrigações não sejam cumpridas, por mais compromissos que esteja marcado na agenda, mesmo com milhões de avisos de “está atrasado para a reunião”, PARE, pare tudo, largue o celular, desligue o computador, saia da zona de conforto; troque de roupa ou simplesmente penteie o cabelo, não crie receios em ser clichê, foda-se a vergonha em ser piegas.

Olhe, simplesmente olhe e preste atenção na(s) pessoa(s) que se fazem importantes na sua vida. Deixa cair essa chuva de lágrimas e dizeres ridículos, abra a boca não para reclamar, não para xingar. Abra a boca e diga as importâncias, diga. A importância.

Não tenha receio de abraçar, se quiser abraçar, não se envergonha se desejar chorar, e o mais importante, abra o jogo, diga o quão grato é para cada um que o rodeia. Ninguém é de ferro e aguenta guardar tudo para si para o resto da vida.
Abrace quem desejar abraçar, chore na frente de quem desejar chorar, diga “eu te amo” para quem desejar dizer, só não vá dormir com arrependimentos.
Num dia, você está com todos, todos estão bem e tomados pela rotina da vida, num outro dia, você se encontra perdido, sem o que pensar nem o que fazer.
Há sempre o pensamento egoísta de que “isso nunca vai acontecer comigo” e é quando a casa cai e você desaba. Você acorda e programa seu dia, e em meia hora, a vida muda completamente.
Existe uma linha tênue dividindo o possível do impossível, e em meio a isso, está você com as pessoas que gosta. A diferença entre o que pode acontecer e não pode acontecer é pouca, e o que nos resta é valorizar e sorrir para o que se faz presente em nossa vida.
Qualquer que seja nossa força e desapego, tem uma hora que tudo desmorona, e somos adultos e devemos lidas. Demora em cada informação ser assimilada, e os fatos devem ser digeridos, mas o coração para, seu funcionamento falha e a linha tênue, se rompe o impossível, um dia acontece.

 

– Queria dedicar esse texto para minha avó, que se encontra internada, e peço de coração que mande muita, muita positividade para ela, ela precisa.

Texto: Larissa Hellen.
Dedicatórias: A equipe SPNQSC deseja toda a melhora em massa do mundo para sua avó. Só quando envelhecemos sentimos o peso da vida. Que tudo de bom atinja ela em todos os momentos, até que ela saia do hospital.

Clique AQUI para ouvir a música que Larissa usou para escrever este texto.

MEMORIAL DA RESISTÊNCIA – # LEMBRAR É RESISTIR

Memorial da Resistência de São Paulo é ação criada pela secretaria da cultura estadual.

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Nossa história vai muito além do atual ela vem de um caminho percorrido por outras pessoas. Quando começamos nossa aprendizagem escolar, cruzamos nossos estudos com uma disciplina chamada história e é exatamente aqui que ouvimos falar sobre o período de ditadura militar no Brasil- na maioria das vezes esse é o primeiro contato que temos com esses fatos.

O memorial da resistência tem por objetivo relembrar marcas da repressão passada por muitos na década de 64- o espaço liberado para visitação esta localizado no Largo General Osório , 66 – Luz (entre as estações Julio Preste e Luz) , atualmente é apresentado em seu ambiente a exposição fixa e de mais eventos agendados, podendo ser conferidos no site oficial do memorial que é http://www.memorialdaresistenciasp.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=8&Itemid=14.

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Vale muito a pena conferir esse lado da nossa história, além disso, é como diria a frase # Lembrar é resistir – e assim penso, é só lembrando ou conhecendo aquilo que se passou de ruim que lutaremos para que não volte a se repetir.

TEXTO: KEISA KESSIA

FOTO: KEISA KESSIA

REVISÃO KEISA KESSIA

Ressaca – Marcelo Rubens Paiva.

Por @Detachez

Muitos não se esquecem do primeiro gol, feito no pátio da escola. Ou do primeiro frango, quando se foi escalado à revelia para jogar debaixo das traves. Do primeiro beijo de língua, da primeira cicatriz, do primeiro fora e da primeira vez em que se ouviu “eu te amo”, ninguém se esquece.

Também não nos esquecemos da primeira vez em que ouvimos “vou para a casa da minha mãe”, do primeiro divórcio, da audiência na Vara da Família, do terno e do cinismo do advogado do outro, e do tédio do juiz, que já ouviu aquela ladainha tantas vezes…

Nem do primeiro reencontro casual com a ex, em que ela, sorridente, está mais bonita, mais loira, menos cacheada, mais magra, com um par de seios novos, maiores e um vestido bem mais curto que os anteriores, muito bem acompanhada por alguém mais bronzeado, simpático, gente fina e absurdamente mais sarado.

Ela também não se esquece do dia em que vê o ex saindo do restaurante mais caro da cidade- enquanto antes só a levava no pé-sujo mais barulhento-, abraçado a uma garota mais nova que os filhos deles, usando boné, tênis All Star, sem os cabelos brancos de antes, mas ainda com aquela eterna barriguinha, fumando [desde quando voltou a fumar?] e entrando num carro que daria para pagar a pensão alimentícia de todas as mulheres presentes no empreendimento gastronômico citado.

Ambos os gêneros não se esquecem do primeiro orgasmo, do dia do sim, da lua-de-mel e da primeira vez em que ele é obrigado a dizer “isso nunca me aconteceu”. Também não nos esquecemos da primeira vez que em ouvimos “não é isso que você está pensando”, “o problema não é você”, “o celular estava no vibracall” e “não bufa”. Nem da primeira camisinha. Muito menos da primeira camisinha estourada.

Diz o pensador Washington Olivetto, que uma garota não se esquece do primeiro sutiã. O que as garotas não sabem é que nós, garotos, não nos esquecemos da primeira vez em que prendemos o bem mais precioso no zíper da calça. Vemos estrelas. É como se o Big Bang se repetisse bilhões de anos depois.

Sr. Marcelo Rubens Paiva

Sr. Marcelo Rubens Paiva

Elas nunca se esquecem da primeira curetagem, e eles, do primeiro exame de próstata. Acho que poucos se lembram da queda do primeiro dente-de-leite. Mas ninguém se esquece da primeira extração do primeiro siso. Ou da primeira operação para extrair as amídalas. Ou da primeira dentadura.
Não nos esquecemos também quando o limite de colesterol passou para o nível inaceitável, ou quando ouvimos pela primeira vez a pergunta: “Você tem caso de diabetes na família?”

Da primeira vez em que o time de coração ganhou a Libertadores, alguém se esquece? Nem os corintianos, da quantidade de vezes em que o time foi eliminado perto das finais. Nem em qual churrasco estava nas finais das Copas do Mundo de futebol. Nem do pênalti perdido pelo craque do time na decisão. Ou da primeira vez que entrou num estádio. Ou dá última, em que passou mal, depois de jantar o dogão com purê e maionese da rua em frente.

Ninguém se esquece da primeira vez em que andou de bicicleta sem rodinhas, da primeira vez em que boiou sem a ajuda dos braços do avô, do primeiro tombo do cavalo. E do primeiro e indigesto fio de cabelo branco, alguém se esquece?

E do tamanho do primeiro celular? E da primeira bicicleta? E do primeiro carro? E da cara do primeiro instrutor da autoescola? E de todas as casas em que morou? E do primeiro cachorro? E de todos os outros? E dos gatos? Da babá? Da primeira escola? E da última? Da primeira namorada? E da última?

Tudo bem se esquecer do número do PIS/Pasep, ou do passaporte, que muda a cada cinco anos. Mas alguém se esquece do número do próprio celular, RG, CPF ou do telefone da mãe? Do aniversário?

Alguém se esqueceu da reação que teve quando soube que o Senna, o Tancredo, a Diana, o John Lennon, os Mamonas e o Michael Jackson morreram? E por qual canal assistiu a queda das Torres Gêmeas no 11 de setembro? E da primeira greve? Do primeiro voto? Da primeira vez diante da urna eletrônica? Da primeira vez que voou de avião, ou helicóptero, ou para o espaço?

E a Zélia anunciando pela tevê que cada brasileiro teria o direito de sacar apenas R$ 50? E das Diretas Já? E dos caras pintadas? E do Collor dando adeus? E do que estava fazendo no dia do blecaute? E do dia em que o PCC parou a cidade?

Alguém se esquece do cheiro da avó? Do perfume do amante? Do gosto da manga, da água de coco, do caju, do figo? Do cheiro do mar? De dizer “feliz ano novo”? De curar soluço? Do primeiro vestibular? Do homem chegando na Lua? Do primeiro porre?

Depois dizem que somos um povo sem memória.

 

Texto: Marcelo Rubens Paiva.
Foto: Ellen Fialho.