Na Moral – Terapia barata para frustrações cretinas.

Por Larissa Helen

E como se tivessem ouvido minhas preces, a vida deu uma acalmada e as pessoas começaram a voltar para seus devidos lugares de costume. O que havia de ir, foi, e o que necessitava ficar, ficou. Acabei tendo tempo de organizar essa vida caótica na qual ia levando, e rumando por caminhos errados, que eu obviamente não tinha aprovado. Tirei alguns textos do fundo de minha mochila, rasguei velhas cartas que me faziam mal, reescrevi meus dias, e atualizei meu futuro. Coisas vão para o lixo, e outras são resgatadas, restauradas, afinal de contas, sabemos o que deve permanecer e agregar, e não atrapalhar (não mais).

Quando não se vive mais aquela vida badalada de “começo de faculdade” você começa a se frustrar e se questionar se tudo isso é dessa forma mesmo, ou se você começou a envelhecer demasiadamente rápido.
Os encontros depois da aula se tornam menos frequentes, as idas à boate acabam se fazendo menos emocionantes e as conversas banais que te faziam rir, agora não te prendem nem a atenção.

Isso é o que? É a idade, a chatice, a maturidade, é o que? Os mesmos lugares sempre, as mesmas pessoas, sempre, as mesmas conversas, mesmas piadas, e tudo gira, gira com tamanha velocidade que você acaba tropeçando e caindo. Sua visão fica desfocada, as pessoas perdem suas faces e as coisas tendem a piorar, piorar e piorar.

Frustrei-me e acabei sentando à mesa e buscando razões, motivos e tudo o mais para que eu encontrasse o X de minha questão. Refiz todas as minhas idas para boates, todas as mais diversas conversas, as idas ao cinema, as caminhadas à toa, tudo. Risquei cada item, extremamente nervosa, uma coisa ruim, uma raiva e insatisfação me tomava por completa.
O que raios me falta? Alguma coisa, alguém nesse planeta há de me satisfazer.

Essa reflexão totalmente ridícula durou bastante tempo, até que minha campainha tocou (barulho ensurdecedor, irritante e incomodante), não estava no meu melhor momento, as roupas eram de dormir, e o cabelo já não era penteado fazia uns dois dias, a situação era complexa (assim devo dizer).
Uma velha amiga havia vindo me visitar, e presumi que não passaria de um abraço (indesejado) e o exercício da boa educação de se perguntar coisas do tipo: “Você está bem? Como tem sito as férias?”, mas felizmente não reduzimos nossos anos de amizade em algumas frases prontas. Propus que sentássemos à frente de minha casa. O céu, cretinamente, parecia ter sido pintado à mão para aquela hora, eu, quem não gosto de sol, agradeci por estar presente naquele cenário. A conversa foi tão satisfatória que me obriguei a sorrir quase que o dia todo. Havia simplicidade, havia mais de mim naquele momento, naquela ação singular de sentar-se na rua e ver os que passavam, prosear sobre hábitos antigos e rir de amizades passadas. Havia uma satisfação naquele ser, no meu ser, que eu não via fazia séculos.
Não precisei beijar quinze pessoas numa noite, não precisei comprar roupas caras, não precisei ir às boates nem aos barzinhos de esquina. Necessitava apenas de alguém que conversasse, um céu feito por encomenda, e o final da tarde sentada na bela da calçada da minha casa.

Acabei que nem precisei gastar dinheiro com terapia, a conversa na calçada me salvou dessa. Pontos para ela.

Texto: Larissa Helen.
Foto: Reprodução.
Clique AQUI e ouça a música que Larissa usou para escrever este texto.

Rapidinhas – Outra vez, Independência.

Por Marcio Cavalcante

Um dia desses fui ao Parque da Independência para reativar memórias da infância neste local de grande simbologia para a cidade de São Paulo. Confesso que tinha uma pontinha de esperança de rever os fotógrafos Lambe-Lambe com as fantasias disponíveis pra criançada, não estavam… Mas ainda tenho os monóculos que guardam imagens da confecção da minha infância.

Essa visita teve haver principalmente com as lembranças das paradas militares do final da década de 70 que eu com 7, 8 anos ficava curioso, fascinado, entusiasmado e “achava” bonito tanta gente uniformizada, carros, cavalos, aviões, tanques… Iguaizinhos aos meus bonecos da Revell e aos Plamobils… Ingenuidade deliciosa.

Bom, lá se vão mais de 30 anos, as verdades foram se descortinando, a percepção abrangendo mais ideias e entre essas mudanças estão que as rodas dos jipes, dos tanques, das baratinhas a um bom tempo foram substituídas pelas rodas de bicicletas, patins, patinetes e skates, no qual cito o camarada Davi Moreti e seu chamado evangelístico. Os cães policiais deram lugar a vira-latas e pugs convivendo entre pastores e pit bulls. Os coturnos deram lugar aos tênis e chinelos de garotos e garotas que correm livres, com ou sem capacetes, que não são monocromáticos.

Dos desfiles militares, sobraram meus bonecos e brinquedos, já que neste parque a presença majoritária é de pais, tios, amigos, namorados, sem-teto, ciclistas, ambulantes, pessoas em geral que circulam em uma sincronia não mais militarizada.

A minha cidade não é mais obrigatoriamente verde oliva… tem varais de cores, sendo o verde do parque que se sobressai como esperança. Obrigado a quem de direito pela memória, pela luta, pelas mudanças… e que possamos manter a liberdade sempre acima da “Paz sem voz, que não é paz é MEDO”.

Texto: Marcio Cavalcante.
Foto: Google.