Uma entrevista com Jair Naves.

Depois de tantas “promessas”, finalmente, Jair Naves, por Caio C. [ http://www.facebook.com/nardoniattackcrew?fref=ts ]

SPNQSC: Seu primeiro trabalho solo, o “Araguari”, foi uma transição em ter uma banda veterana na cena underground de São Paulo e passar a ter um trabalho com o seu nome. Como você lida com a carreira solo?

Jair Naves: O fato de eu estar em um projeto que leva o meu nome me dá, antes de qualquer coisa, liberdade. Na época da minha banda anterior eu também trabalhava nessas condições, já que as composições também eram minhas, mas agora eu me sinto ainda mais confortável para experimentar o que eu bem entender em termos de sonoridade, conceitos e temáticas.

SPNQSC: Ainda falando sobre o Araguari. Como foi a ideia de fazer um trabalho com esse nome? O que Araguari (município) significa para ti?

Jair Naves: Quando eu decidi começar uma “carreira solo”, me parecia necessário iniciar essa fase falando sobre algo que fosse muito pessoal, que falasse a respeito das minhas origens. E eu optei por falar da cidade em que meu pai nasceu e cresceu, o lugar onde eu passei alguns dos melhores momentos da minha infância e que tem um valor emocional gigantesco para mim, por representar uma ligação com alguém que eu perdi muito cedo – isso sem contar a coisa toda d’O Caso dos Irmãos Naves, episódio que se passou em Araguari. 

Antes do EP sair, eu tinha o receio de que ninguém se interessaria por um disco que leva o nome de uma cidade do interior de Minas Gerais. Felizmente, não foi bem assim. Acabei descobrindo que muitas pessoas possuem suas “Araguaris” particulares.

SPNQSC: De onde saiu a ideia do nome do novo CD?

Jair Naves: “E você se sente numa cela escura, planejando a sua fuga, cavando o chão com as próprias unhas” são versos de uma das músicas que gravamos nas sessões desse disco, mas que acabaram não entrando no álbum. Mesmo a canção tendo ficado de fora, esse trecho resume muito bem o sentimento de inconformismo e inquietação que caracteriza a maior parte das faixas. E, ao contrário do que uma interpretação apressada desse título possa sugerir, não é uma afirmação pessimista. Pelo contrário, é a constatação de que, por pior que lhe pareça o atual estado da sua vida, você sempre pode transformá-lo.

SPNQSC: Uma coisa bem íntima. Como você compõe suas músicas? Prefere um lugar calmo ou mais agitado?

Jair Naves: Prefiro a calmaria, definitivamente. Não consigo produzir ou mesmo concentrar direito em lugares muito agitados – o que é um problema para alguém que mora em São Paulo.

SPNQSC: Jair, eu sinceramente gostei muito da temática do Araguari, mas o novo cd eu não consigo parar de ouvir, porque eu realmente me identifiquei com muitas letras. Qual é a diferença do Araguari para o E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando A Sua Fuga, Cavando O Chão Com As Próprias Unhas? Houve um amadurecimento musical?

Jair Naves: Há grandes diferenças entre os dois trabalhos. Antes de qualquer coisa, as temáticas são quase opostas: enquanto “Araguari” é um registro nostálgico, que fala muito sobre o passado, enquanto “E você se sente…” é um disco urgente, sobre o agora e questionamentos sobre o futuro. Além disso, o EP foi um disco feito em um período longo, em que eu toquei boa parte dos instrumentos, ao passo que esse disco novo foi feito num esquema “semi ao vivo” e os arranjos tiveram participação de uma banda das mais talentosas: Renato Ribeiro (guitarra, violão de cordas de nylon e vibrafone), Thiago Babalu (bateria), Alexandre Xavier (piano) e Alexandre Molinari e Adriano Parussulo (baixo).

SPNQSC: Escrevi uma resenha sobre o seu novo CD intitulado “E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando A Sua Fuga, Cavando O Chão Com As Próprias Unhas”. Jair qual é a principal característica desta nova obra?

Jair Naves: Difícil dizer. As músicas são bem diferentes entre si, as letras falam sobre temas bem diversificados… creio que a principal característica seja a tal urgência que eu ressaltei na resposta anterior. E o fato de ser um disco feito à moda antiga, sem correções de pós-produção, sem auto-tune ou coisas similares. É tudo muito cru, verdadeiro, orgânico, sem maquiagem – o que faz com que o disco tenha certas imperfeições aqui e ali, mas ao menos soa autêntico, o que era minha principal preocupação.

SPNQSC: Pensei que “Um passo por vez” entraria neste cd cheio. Fale um pouco para o pessoal do blog sobre essa letra.

Jair Naves: A princípio entraria sim, mas tivemos tantas músicas novas para esse álbum que não faria sentido incluir uma música já lançada anteriormente. Tivemos que excluir quatro canções inéditas do repertório final. Das antigas, só incluímos “Carmem, todos falam por você” e “Vida com V maiúsculo, vida com v minúsculo” porque essas são das preferidas entre o nosso público e ainda não possuíam registro de estúdio.

SPNQSC: Como eu já havia dito, particularmente gostei muito do novo cd. Como foi o processo de composição das músicas?

Jair Naves: Renato, Babalu e eu passamos o primeiro semestre lapidando as composições e trabalhando nos arranjos. As letras, como de costume, foram finalizadas quando já estávamos em estúdio.

SPNSQC: Umas das musicas que eu mais me identifiquei foi “Maria Lúcia, Santa Cecília e Eu”. Como é a relação entre Jair Naves e Maria Lúcia?

Jair Naves: A melhor possível. A letra já diz tudo, minha mãe realmente é a “minha pessoa preferida”. Fico feliz com o fato de as pessoas gostarem dessa, é uma das mais importantes pra mim – e um presente dos melhores por parte do Alexandre Xavier, o coautor da música.

SPNQSC: Jair, hoje (27 de Outubro), estreou o clipe de “Pronto Para Morrer (O Poder de Uma Mentira Dita Mil Vezes)” na MTV. Qual é a sensação de ter um clipe rolando por ai, para todos assistirem e qual foi a sensação de ver a estréia?

Jair Naves: Ótima! É sempre comovente ver um trabalho pronto e indo a público. Os videoclipes ainda são uma forma muito eficiente de divulgação. Espero conseguir fazer também de outras músicas desse disco.

SPNQSC: Tanto no Ludovic, quanto na sua carreira solo eu percebo que você tem uma energia fantástica no palco. Os shows são libertadores para você, assim como são para o pessoal que está lá assistindo?

Jair Naves: Bom, espero mesmo que as pessoas encarem da mesma forma que você. Realmente há uma liberação de energia enorme nos shows, as apresentações são uma válvula de escape para sentimentos reprimidos. Chega a ser terapêutico. A Louise de Bourgeois sempre é lembrada por ter afirmado que a arte é uma garantia de sanidade. É meio que a relação que eu tenho com os shows.

SPNQSC: Sobraram músicas do processo de criação do novo cd? Já está pensando em lançar singles ou outro cd cheio?

Jair Naves: Sobraram duas músicas gravadas e outras que não foram registradas. Ainda não sei o que será feito desse material, acho mais prudente deixar passar mais um tempo para analisá-lo com o devido distanciamento. A princípio, não deveremos levar a público essas canções, mas nunca se sabe. E ainda é muito cedo para pensar num próximo álbum, mas acredito que seguiremos compondo para que o disco seguinte tenha apenas músicas feitas por essa formação.

SPNQSC: Agora Jair, quais são os próximos planos?

Jair Naves: Levar as músicas desse disco a todos os lugares possíveis. E tocar, muito, em todo lugar que esteja disposto a me receber.

SPNQSC: Obrigado pelo tempo que nos concedeu para esta entrevista Jair.

Jair Naves: Eu que agradeço pelo espaço. Espero que a gente se veja em breve por aí.

[[As duas primeiras fotos são de Daniel Moura, a terceira, eu peguei na página pessoal do Jair no Facebook. A quarta imagem peguei na internet.]]

Spinelli Détachez.

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E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando A Sua Fuga, Cavando O Chão Com As Próprias Unhas (resenha)

Eu inicialmente, havia pedido para outra pessoa escrever esta resenha, mas acabei, como na própria resenha diz, tendo a vida não falhando em me surpreender, com essa “carícia” do @caio_io . Então, sem mais delongas, Jair Naves e seu novo trabalho por Caio C.

Ainda ecoam frases do antecessor de “E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando A Sua Fuga, Cavando O Chão Com As Próprias Unhas“, Araguari… De todas as lembranças. Dos meus, seus, nossos amores inconfessos. De tudo o que passou. Aquilo que acabou.

E quando é o fim… Quando não há mais nada o que fazer, a não ser desistir, pois se não deu certo com a gente, acho que nunca vai dar. Mas também há de existir uma coisa, só uma coisa para me manter feliz: Você, pois quando eu menos esperava, a vida não falhou em me surpreender. Nada mais importa, agora que eu encontrei você. Foi mais ou menos isto que Jair Naves quis passar no seu ep “Araguari”.

Não vou dizer que hoje ele está mais amadurecido ou algo do tipo, mas quem ouve pela primeira vez o novo cd, irá se perguntar trocentas vezes: Como não é o maior letrista do Brasil? Eu fico me perguntando isso desde o lançamento da ep… O cd começa com uma afronta à masculinidade: Pronto Para Morrer (O Poder de Uma Mentira Dita Mil Vezes), soa com ar de potencialidade, de reavivamento sabe? Como Sir Naves mesmo diz, EU NÃO ESTOU PRONTO PARA MORRER, mas às vezes não somos nós que decidimos isto, a morte vem sem pedir.

Sem bater na porta para pedir uma xícara de açúcar ou entra em sua humilde residência para tomar um café e bater um papo. Não ela vêm, ainda mais quando as palavras batem contra. Transmite dor, aflição e desapego, mas ao mesmo tempo um preludio ao fim.

Já em “Poucas Palavras Bastam“, Jair expressa o sentimento repulsivo do outro ser, pois como ele mesmo diz “Se a sua consciência é muda, a minha fala alto demais. E vai impedir que eu durma se um dia eu fizer o que você faz”. Porque existem pessoas que fazem coisas, e se sentem numa boa. Como? Será que a sua consciência não pesa? PARE, pois para tudo há um limite. 

No Fim Da Ladeira, Entre Vielas Tortuosas, se tornou uma das minhas letras prediletas, pois quem nunca pensou que havia achado a pessoa certa, numa rua, esquina, bar ou coisa que o valha e no fim das contas, só se fodeu? Meu caro, se isto não aconteceu contigo, sinta-se feliz ou tome cuidado, pois ainda pode estar por vir. Nesta música Jair ouve conselhos de um senhor, que pelo jeito já esteve neste lugar e sabe tão bem quanto qualquer um que “auto-piedade é a sequela mais comum do amor”. De que não adianta beber, pois assim você não irá chegar nem nos 40. Peça conselhos, passe por cima dessa fase, pois sempre haverá uma mulher que irá te deixar desse jeito.

Sentimento de “Há se eu pudesse voltar e fazer tudo novamente“, ou quem sabe se ela ainda estivesse aqui, eu poderia ser melhor, mas não já passou. Se lamente o tanto que há de se lamentar e aprenda. Tente na próxima vez fazer algo mais produtivo. 

Maria Lúcia, Santa Cecília e Eu, eu também posso dizer que me identifiquei com essa letra. Certas partes onde Jair cita como é ruim estar despreparado para lidar com o mundo lá fora ou da sua relação com a sua mãe, que ao meu ver é bem parecido com a relação entre minha mãe e eu. Minha mãe, minha pessoa preferida. Quando a Sra. Se for, pode ir tranquila, pois seu filho da sua forma errônea aprendeu. Se tornou um homem e hoje está aqui, batalhando para ser alguém cada dia melhor. Obrigado mãe. 

Existem muitas frases impactantes nesta música, mas a que mais me deixou calado foi: “De que a morte não é tão definitiva, e sim uma breve despedida“. Porque de uma forma ou de outra, é a mais pura realidade. Não há o que se fazer.  O que podemos acreditar que depois daqui, iremos esperar para retornar para cá novamente, para de uma forma ou de outra, acabar o que não acabamos na outra vida. 

Carmem, Todos Falam Por Você. Antes do lançamento do cd já rolavam alguns shows com essa música. Uma das poucas músicas em que fiquei meio confuso com o que Jair quis passar, senão a única. Criação errada, gera uma pessoa inútil. Ou melhor dizendo, uma pessoa manipulável. Neste caso Carmem, que engravidou de um estrangeiro e se mudou… 

Guilhotinesco, soa meio como que “eu aprendi”, e estou cá de pé para aguentar um pouco mais de dor. Que com o tempo depois de levar tanto sopapo da vida, começamos a levar beijos e abraços sinceros. Sendo ou não temente a Deus ou em qualquer coisa que tu acredite. 

Vida Com V Maiúsculo, Vida Com V Minúsculo, outra música que Jair tocava nos shows antes do lançamento do primordial e sucessor de Araguari. Desde que ouvi o cd pela primeira vez, foi a minha música preferida. Trás um ar de recompensa, de zelo. Um estar de bem com a vida, mesmo não estando sabe? Porque “Tão tarde eu fui dormir, 
tão cedo eu acordei, um desapego imenso”. O que eu reforço a dizer, que soa como um bem estar, pois no desenrolar da música Jair solta um “Eu não vejo em mim nenhum medo, não existe em mim nenhum medo“. Acho que não tem muito o que dizer desta letra, pois essas duas partes dizem por si só.

Covil de Cobras, Que seja só eu contra mil. Depois de muito ouvi-la, posso dizer que Jair se sente atrelado num verdadeiro covil de cobras e assim a letra vai se desenrolando e anuncia assim o veredicto no refrão da música.  

Eu sonho acordado, também é uma das minhas letras preferidas, pois só quem pega condução lotada todos os dias sabe como é, ir e voltar do trabalho pensando em tudo o que está acontecendo na sua vida. É como se fosse um muro das lamentações ou coisa do tipo. Eu bem sei como é isso. Mas sabe como eu não reajo bem quando eu gosto tanto de alguém. Parece que não aprendi a lidar com meus sentimentos e fico naquelas de: E se mais uma vez der errado e eu me foder. Ela mesmo reclama da sorte e diz QUE SÓ SE FODE. Ela tem uma bela voz, mas se torna rouca do tanto que gritar, chora, esperneia e afins. Enfim a vida é isso. Nem tudo acontece do jeito que a gente quer. Enfim, eu sonho acordado.

Ao meu ver: “As pessoas vêm e vão, hoje eu tenho essa convicção“. Realmente todos têm essa convicção. Lutar e não ter a pessoa. Quem nunca? A gente só queria que desse certo, mesmo dos modos mais errados. Porque o errado é somente uma questão de opinião. Só estar com a pessoa. Aprender de uma vez por todas, que o ser mundano não é por si só uma ilha. Que pode estar no melhor dos momentos ou no pior dos seus dias. Apenas estar e sim, estar ali. Ao meu ver as pessoas deixam as coisas passarem por suas vidas tão facilmente.

O sucessor de Araguari, “E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando A Sua Fuga, Cavando O Chão Com As Próprias Unhas”, está por assim dizer poesia para os ouvindo e alimento para a alma. Desde a época de Ludovic, Jair Naves era assim. Na sua carreira solo não seria diferente. Continua passando lições de vida. E que continue passando essas tais lições, pois eu, assim como muitas pessoas estão aqui para recebe-las de braços, alma e ouvidos abertos.

Ah, tão sem jeito. Ah, tão sem jeito, mas é assim que é pra mim.

Link para download: http://tramavirtual.uol.com.br/jair_naves/

 

Spinelli Détachez.