Eterna Pauliceia – Adoniran Barbosa, o pai do samba paulista.

Por Alexsandro Braga

Meu nome é Alexsandro Braga e em outra oportunidade me apresentarei a vocês. Confesso que fiquei feliz ao ser convidado para escrever nesse site e aqui estou dando início à coluna ETERNA PAULICEIA, na qual juntos recordaremos personagens inesquecíveis, casos e acasos da nossa querida pauliceia.

Adoniran

Adoniran

Começo recordando de Adoniran Barbosa, figura conhecida como o pai do samba paulista. Seu nome era João Rubinato, nascido em Valinhos (06/08/1910 a 23/12/1982). Filho de Francesco Rubinato e Emma Ricchini, imigrantes italianos de Cavárzere (Veneza), que vieram com sua família para o Brasil em busca de uma vida melhor como muitos fizeram. Abandonou a escola cedo porque não gostava de estudar e trabalhou desde menino para ajudar a família. Moraram em Valinhos, Jundiaí, Santo André e finalmente chegaram à Terra da Garoa. Seu primeiro ofício foi entregador de marmitas e muito ele aprendeu com as frustrações causadas pela rejeição de seu talento. Queria ser artista e escolheu ser ator. Tentou o palco antes do rádio, mas foi rejeitado porque não tinha padrinhos nem instrução adequada. O samba entrou em sua carreira sem querer por acaso. Diplomado na escola da vida sabia que o tão sonhado sucesso econômico só seria possível se ouvisse seu nome no famoso rádio. O magnífico período das rádios criou muitas modas, mexeu com costumes e permitiu a participação popular em um país que era em sua maioria rural. Inventaram a cidade, popularizaram o emprego industrial e acenderam os desejos de migração interna e de fama.

Adoniran percebeu as possibilidades para seu talento e conquistou espaço como cantor estreando em um programa de calouros com um samba de Ismael Silva e Nilton Bastos, o Se você jurar. Retornou depois cantando o belo samba de Noel Rosa, Filosofia, que lhe abriu as portas das rádios e serviu como ponto de partida para suas composições futuras. Sua vida profissional se deu a partir de interpretações de outros compositores. Embora a composição não o atraísse muito, a primeira a ser gravada foi Dona Boa, na voz de Raul Torres. Depois gravou em disco Agora pode chorar sem sucesso. Aos poucos se entregou ao papel de ator radiofônico; à criação de diversos tipos populares e interpretação, em programas escritos por Osvaldo Moles, que fizeram dele um sambista de relativo sucesso. Mergulho maior fez na linguagem, com construções linguísticas pontuadas pela escolha exata do ritmo da fala paulistana, na contramão da própria história do samba. Aproveitou-se da linguagem popular paulistana para compor músicas que falavam sobre os despejados das favelas, os engraxates, a mulher submissa que se revolta e abandona a casa, o homem solitário, usando um toque de humor próprio com que descreveu tantas cenas do cotidiano.

O seu primeiro sucesso como compositor virou canção obrigatória de todas as rodas de samba: Trem das Onze. Praticamente todo brasileiro e paulistano, em particular, conhece ao menos seu refrão. Adoniran alcançou assim o sonhado sucesso que durou pouco e não lhe rendeu mais que uns míseros trocados de direitos autorais. A música, gravada pelo autor em 1951 foi regravada pelos “Demônios da Garoa”, conjunto musical conhecido de São Paulo que estourou primeiramente no Rio de Janeiro. Entre a tentativa de carreira nas rádios paulistas e o primeiro sucesso, trabalhou duro, casou-se duas vezes e frequentou a noite como boêmio. Nas idas e vindas de sua carreira venceu muitas dificuldades. O rádio encantava multidões, fazia de várias pessoas ídolos, mas também era cruel como a vida era. Numa de suas noitadas, de fogo, perdeu a chave de casa e não tinha outro jeito senão acordar sua esposa Matilde. Daí compôs o samba Joga a Chave. Trabalhou na rádio Record por mais de trinta anos. Nos últimos anos de sua vida, já doente, não podia sair de casa pela noite como gostava, então gravou algumas músicas mesmo com dificuldade. Entretanto, deixou suas eternas marcas na história de São Paulo e do nosso samba.

Texto: Alexsandro Braga.
Foto: Reprodução.
Fontes: Folha de S. Paulo, Ilustrada, página 40. Edição 19593 de 24 de novembro de 1982.
Biografia: Ayrton MUGNAINI Jr – Adoniran, dá licença de contar… São Paulo: Editora 34, 2002. ISBN ISBN 85-7326-253-2